Faz tempo que foi ontem

22 Sep

Você parecia o Julian Casablancas se ele tivesse nascido no meio do mato. Seu beijo encaixava no meu como uma luva e seu braço cabia certinho na minha curva da parte pequena das costas, encaixava feito lego, se lego fosse feito de espuma. Você mal falava comigo porque não sabia mesmo falar o que prestava; mas eu prestava atenção mesmo sabendo que quando falava era só do seu umbigo. Não tinha problema nenhum, afinal, seu rosto deitou comigo por dias e anos; e décadas depois, seu abraço, seu beijo e suas baboseiras ainda cabiam certinho dentro de mim, mas só naquele espaço curto onde fica guardado o passado. Saudade nem sei se é a palavra. A nossa pele tem memória.

Rani Ghazzaoui

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Olhar pra dentro

13 Jun

Quem é você,

Então,

Se agora o que te define,

Já não?

Do que você é feito,

Se além de todas as provas,

Você continua perfeito?

Que língua você fala,

Que língua fala ele?

E te conhece mesmo?

E te vê

Por você?

E você,

Se conhece?

Se enxerga, 

Se crê?

Não adianta pedir amor

Se não consegue se amar.

Não vinga nunca a mudança

De quem jamais quer mudar.

Quem é você?

Rani Ghazzaoui

Versinho Reflexivo

25 May

A gente olha pra fora,

Olha pra dentro,

Olha pro centro,

E demora.

Rani Ghazzaoui

What if I stayed?

17 May

My head on your chest,

Your kiss on my mouth,

Stroking,

Smoking,

Gently,

Roughly,

Calm.

You whispered a question,

I frowned.

My hands on your neck,

Your lips on my down,

I wish I had stayed for life,

But I couldn’t help the qualm.

Rani Ghazzaoui

Sinto muito

16 Dec

Somos loucos,
Somos cegos,
Somos surdos,
Estamos todos mortos.
Vocês não vêem que a criança morrendo na escada –  ensangüentada, molhada, estuprada –  a criança é você, sou eu, somos nós?
Estamos doentes,
Estamos malucos,
Estamos todos moribundos,
Estamos perdidos e aos montes.
Com fome e frio e medo do escuro.
Mas tudo é escuro,
Só existe a escuridão.
A um palmo do nosso próprio umbigo nada se vê.
Vocês não sentem a dor da mãe no chão da clínica ilegal de abordo e a dor da mão na nuca do negro, estraçalhado todo dia pelo seu eterno crime de ser?
Vivo ou morto, morto ou vivo. Sempre morto.
A mãe não é você.
O negro não é seu.
O refugiado não existe.
Nós somos a negação da vida.
E negar a vida é morrer.
Vocês não sentem?
Eu sinto
Eu sinto
Eu sinto
Eu sinto
Eu sinto
Muito.

Rani Ghazzaoui

Escrevo porque sei

1 Nov

Fui escrevendo como quem desaba, como quem desagua, como quem desmaia, vomita, expele, explica. Fui escrevendo nossa história por cadernos, rodapés, cartolinas, cartões, capas de revista. Fui escrevendo rápido, sem compasso, sem métrica, sem rima, sem ritmo, sem jeito, até. Fui escrevendo desenfreada, maluca, gozando, subindo, descendo, correndo, gritando. Fui escrevendo com medo, com desejo, com vontade, com paúra, com receio, com amor, com emoção. Fui escrevendo por anos, e décadas, e séculos, e milênios, e muito mais. Fui escrevendo pra sempre, e sempre, e sempre, e sempre mais. Fui escrevendo tudo, cada detalhe, cada anseio, cada novidade, cada rabisco que fazia de você, você e da gente, a gente. Fui escrevendo uma história de amor que não sabia limites, não tinha rédeas, não se acostumava com o morno, não se continha com a média. Fui escrevendo desesperada, tremendo, balançando no meio da rua, com sangue na lapela e suor na testa. Fui escrevendo desconfortável, trêmula e morta, andando na calçada, correndo pro meio da rua. Fui escrevendo escorrendo pra debaixo da terra, escorregadia com as lesmas, ensopada de vida, póstuma. Fui escrevendo do além, fui escrevendo com anjos e diabos, com espíritos e fantasmas. Fui escrevendo porque é o que sei fazer. Escrever é só o que eu sei fazer.

Rani Ghazzaoui

A(fim)co

31 Aug

Estou aqui e não vou embora. Estou fincada nesse chão. Reclame, tudo bem. Palpite. Me diga como devo viver minha vida. Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira. Mentira, eu sei. Você se indigna tanto que é pra sacudir seus medos, não os meus. Troveje, respingue, me alague. Daqui do chão não faz a menor diferença. Raiz cresce pros lados e nunca olha pra cima. Não vou pra canto algum. Não saio daqui jamais, nunquinha, jamé.

Você, amigo, é o forasteiro. Eu estou aqui desde o primeiro.

Soberba é assim. E fim.

Rani Ghazzaoui